terça-feira, 21/07/2026

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São José

Palhoça lidera ranking estadual de maus-tratos à animais

Em resposta a dados alarmantes consolidados entre 2023 e 2025, Ministério Público de Santa Catarina lança o projeto "Guardião da Vida Animal" para forçar prefeituras a criarem políticas públicas permanentes.

Os números que antes se diluíam em boletins de ocorrência dispersos agora têm o peso de um diagnóstico oficial e alarmante: os maus-tratos a animais em Santa Catarina não são episódios isolados, mas um problema estrutural. No topo dessa realidade está o município de Palhoça, na Grande Florianópolis, apontado como a cidade catarinense onde os animais mais sofrem proporcionalmente. Com uma taxa média de 244,78 casos por 100 mil habitantes no triênio de 2023 a 2025, o município lidera um ranking que acaba de se tornar o estopim para uma ofensiva jurídica e institucional no estado.

Diante do cenário, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), por meio do Grupo Especial de Defesa dos Direitos dos Animais (GEDDA), lançou nesta segunda-feira (20) o projeto Guardião da Vida Animal. O objetivo central é claro: tirar o foco do enxugamento de gelo — que atua apenas na emergência do pós-crime — e obrigar as administrações municipais a estruturarem políticas públicas perenes.

A largada do projeto mira os dez municípios com os piores índices consolidados do estado: Palhoça, Jaguaruna, São José, Campos Novos, Garopaba, Florianópolis, Belmonte, Biguaçu, Lauro Müller e Mondaí. Por meio de procedimentos administrativos, as Promotorias de Justiça locais vão fiscalizar e cobrar a atuação dos prefeitos.

A matemática da crueldade: persistência urbana vs. picos no interior

Para traçar o mapa da violência animal, o GEDDA cruzou dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública. Em vez de olhar apenas para os números brutos — o que penalizaria injustamente as cidades mais populosas —, o órgão calculou a incidência por 100 mil habitantes e pontuou a regularidade das ocorrências ano a ano. O resultado revelou duas dinâmicas distintas do problema em Santa Catarina.

De um lado, estão os picos sazonais no interior. Cidades pequenas registraram explosões de casos em anos específicos, como Brunópolis, que em 2024 cravou a impressionante marca de 567,72 casos por 100 mil habitantes — o maior índice registrado no período. Fenômeno semelhante ocorreu em Santa Helena (288,66 casos em 2023) e Navegantes (368,57 casos em 2025).

De outro lado, o dado que mais preocupa os especialistas: a persistência crônica dos grandes centros urbanos. Na Grande Florianópolis, a violência contra os animais é uma constante que não cede. São José mantém uma média de 208,55 casos, garantindo o terceiro lugar no ranking geral do triênio. A capital, Florianópolis, figurou no topo em todos os anos analisados, com média de 153,49 casos (6ª posição geral), seguida de perto por Biguaçu (149,67). Nesses locais, o crime não dá trégua; ele se arrasta e se consolida no cotidiano.

Além do resgate: a busca por soluções estruturais

O projeto Guardião da Vida Animal, integrado às ações do Julho Dourado, pretende mudar a forma como as prefeituras lidam com a causa. A estratégia do MPSC prevê que os municípios implementem um pacote de ações integradas que envolvem desde o controle populacional até a repressão e educação:

  • Controle e Identificação: Censos e diagnósticos da população animal, combinados com programas permanentes de castração gratuita e chips de registro.

  • Fiscalização e Denúncia: Fortalecimento de canais de denúncia locais e capacitação de servidores públicos para identificar abusos.

  • Articulação Governamental: Integração da causa animal com as pastas de Meio Ambiente, Saúde, Assistência Social e Educação.

O MPSC defende que o combate aos maus-tratos gera um efeito cascata positivo na saúde pública, no equilíbrio ambiental e na segurança urbana. Paralelamente, a instituição aposta fortemente na “educação animalista” por meio do projeto ELO, que levará campanhas de conscientização sobre guarda responsável e prevenção ao abandono para escolas e espaços públicos.

A expectativa do Ministério Público é que o projeto, que começa no “top 10” da violência animal, seja expandido gradativamente para as demais cidades que integram a lista dos 50 municípios com maiores índices do estado. O recado para os gestores públicos é definitivo: a negligência com a vida animal entrou formalmente na mira da Justiça.