Uma fotografia antiga ganha cores, detalhes e uma nova nitidez. Mas, para quem está diante da imagem restaurada, o resultado vai muito além da tecnologia: são lembranças que voltam à tona, histórias que ganham novos contornos e emoções que encontram espaço para florescer. Na terceira aula do Projeto Memórias Afetivas, em São José, os primeiros resultados da oficina já mostram como a inteligência artificial (IA) pode aproximar as pessoas de suas próprias histórias.
Promovida pela Prefeitura de São José e pela Fundação Municipal Educacional de São José (Fundesj), a iniciativa reúne participantes com mais de 50 anos no Centro de Atenção à Terceira Idade (Cati). Sob orientação do professor voluntário Paulo Roberto Ramos, conhecido como MRPaul, eles aprendem a utilizar ferramentas digitais para recuperar fotografias antigas, preservar registros familiares e manter vivas as lembranças que fazem parte de suas trajetórias.
Para Dona Maria Marta, a experiência tem um significado especial. Ao rever imagens e recordar momentos da infância, ela percebe que o aprendizado ultrapassa as telas e os comandos de um computador ou celular. É também uma oportunidade de revisitar quem foi e reconhecer a importância das experiências que ajudaram a construir sua história.
“É muito recompensador poder olhar para uma fotografia e se enxergar novamente na infância. A gente percebe que não está apenas aprendendo a usar uma tecnologia, mas revivendo momentos, sentimentos e lembranças que fazem parte de quem somos. É uma experiência que toca a gente de uma maneira muito especial”, relata Maria Marta.
A participante Jani Teresinha Becker de Castro também encontrou na oficina uma experiência que vai além da aprendizagem. Primeiro, utilizou a inteligência artificial para restaurar uma fotografia de quando era criança. Depois, decidiu experimentar outra possibilidade: ela perdeu uma filha em um acidente e, com o auxílio da tecnologia, conseguiu projetar como a jovem poderia estar atualmente.
A imagem criada não substitui a presença da filha nem diminui a saudade, mas proporcionou a Jani uma experiência de conforto afetivo, permitindo imaginar como seria reencontrá-la em outra fase da vida. “Restaurar a fotografia da minha infância foi muito emocionante, mas a outra experiência teve um significado ainda mais profundo. Perdi minha filha em um acidente e, com a ajuda da inteligência artificial, consegui imaginar como ela estaria hoje. Foi uma emoção difícil de explicar, mas que, de alguma forma, trouxe conforto ao meu coração”, conta Jani.
A experiência revela uma das dimensões mais delicadas do projeto: a tecnologia pode oferecer novas formas de olhar para o passado, sem apagar as ausências, mas ajudando a preservar os vínculos afetivos que permanecem nas lembranças.
Tecnologia que aproxima gerações
Com mais de 20 anos de experiência na área de tecnologia, o professor voluntário Paulo Roberto Ramos decidiu levar esse conhecimento ao público 50+ para mostrar que a inteligência artificial também pode fazer parte do cotidiano dos idosos.
A proposta é tornar as ferramentas digitais acessíveis, demonstrando como utilizá-las para recuperar cores, melhorar a nitidez de imagens antigas, organizar arquivos e registrar informações sobre pessoas, lugares e acontecimentos retratados nas fotografias.
“Trabalho com tecnologia há mais de 20 anos e quis trazer essa experiência para os idosos, mostrando que a inteligência artificial não precisa ser algo distante ou complicado. Quando eles percebem que conseguem utilizar essas ferramentas para recuperar uma fotografia da família, o aprendizado ganha outro sentido. Não é apenas conhecer uma tecnologia nova, mas descobrir o que ela pode fazer pela história de cada um”, destaca Paulo Roberto Ramos.
O professor também orienta os participantes sobre a importância de preservar os arquivos originais, organizar as imagens e registrar informações que ajudem as próximas gerações a conhecer as histórias familiares. A oficina aborda ainda cuidados com privacidade e segurança no uso das ferramentas digitais.
Aprendizado que valoriza histórias de vida
Para a superintendente da Fundação Municipal Educacional de São José (Fundesj), Maria Helena Krüger, iniciativas como essa ampliam as oportunidades de aprendizado e mostram que o acesso ao conhecimento não tem idade. A proposta também dialoga com o compromisso de oferecer atividades que estimulem a autonomia, a convivência e o bem-estar da população idosa.
“É muito importante proporcionar aos idosos oportunidades de aprender, experimentar e descobrir novas possibilidades. O Projeto Memórias Afetivas mostra que a tecnologia pode ser uma ferramenta de inclusão, mas também de valorização das histórias de vida. Quando uma pessoa consegue recuperar uma fotografia e compartilhar as lembranças que ela desperta, esse aprendizado ganha um significado ainda maior”, ressalta Maria Helena Krüger.
O projeto integra o Programa Longevidade e foi organizado em quatro encontros, nos dias 1º, 8, 15 e 29 de outubro, das 9h às 12h, no Cati, localizado na Avenida Beira-Mar de São José.
Ao final da oficina, a expectativa é que cada participante tenha organizado um pequeno acervo digital, com fotografias originais, versões restauradas e informações sobre os registros, formando uma coleção que poderá ser compartilhada com familiares e preservada para as próximas gerações.
Na terceira aula, os resultados já começam a aparecer. Enquanto aprendem a utilizar recursos que muitas vezes fazem parte da rotina dos mais jovens, os participantes descobrem novas possibilidades de interação com o mundo digital e, sobretudo, de conexão com suas próprias histórias.
Porque, quando uma fotografia recupera seus detalhes, não é apenas a imagem que ganha vida. São as lembranças, os afetos e os capítulos de uma trajetória que voltam a ocupar um lugar especial no presente.


