sexta-feira, 01/05/2026

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São José

O fim de uma era em Naufragados: demolições encerram impasse de 25 anos no sul da ilha

A ação removeu construções pertencentes aos pescadores Andrino Santino Borges e Flávio Argino

O cenário paradisíaco da Praia de Naufragados, no extremo sul de Florianópolis, amanheceu diferente nesta quarta-feira. Sob o som das ondas e o isolamento característico da região, o barulho das máquinas marcou o cumprimento de uma decisão judicial que se arrastava por um quarto de século. Estruturas de alvenaria que abrigavam ranchos de pesca, um bar e um restaurante foram reduzidas a escombros por agentes da Floram, em cumprimento a uma determinação da Justiça Federal.

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A ação removeu construções pertencentes aos pescadores Andrino Santino Borges e Flávio Argino Martins. Segundo o entendimento do Judiciário, os imóveis ocupavam ilegalmente uma Área de Preservação Permanente (APP) e terrenos de Marinha. O caso é emblemático pelo tempo de tramitação e pela localização das estruturas, situadas em um dos pontos de acesso mais difíceis da Capital, onde a natureza preservada divide espaço com um farol histórico e as ruínas de um antigo forte.

A história de Andrino se confunde com a própria trilha de acesso à praia. Morador da região há mais de seis décadas, o pescador era o rosto por trás de um conhecido restaurante local, ponto de parada para trilheiros e navegantes. A sentença que determinava a saída de sua família e a derrubada do estabelecimento data originalmente de 2006. Ao longo dos anos, a prefeitura chegou a solicitar adiamentos para o cumprimento da medida, alegando, entre outros fatores, o alto custo logístico da operação em área remota, estimado em mais de 600 mil reais.

Do outro lado da disputa, a defesa do pescador Flávio Argino Martins levanta questionamentos sobre a seletividade da medida. Para os advogados, a demolição gera um cenário de insegurança jurídica, uma vez que outras estruturas similares permanecem de pé em terrenos com as mesmas características legais na Ilha de Santa Catarina. Com a safra da tainha batendo à porta, o foco agora se volta para a tentativa de obter autorizações para ranchos provisórios, garantindo que a tradição da pesca artesanal não seja totalmente interrompida pela ausência de infraestrutura.

Enquanto a poeira baixa em Naufragados, resta a incerteza sobre a recuperação ambiental da área e o manejo dos entulhos. A Floram, que executou o serviço sob ordem judicial, ainda não detalhou o plano para a retirada dos materiais da praia. O episódio encerra um capítulo longo da história jurídica local, mas deixa no ar o debate sobre o equilíbrio entre a preservação rigorosa do meio ambiente e a permanência das comunidades tradicionais que habitam a costa catarinense há gerações.